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Circumambulatio

 

Texto de Laura de Castro

Se o alinhamento das obras numa exposição nunca é arbitrário, supondo-se que reflecte ligações e linhas de força que o artista ou galerista pretenderam sublinhar, esse facto torna-se ainda mais relevante nesta exposição, em que todas as peças vivem agrupadas em núcleos rigorosamente planificados.

 

As regras que assistem a tal planificação sugerem duas imagens principais. A primeira, é a de que tudo se baseia num princípio de filiação, entre um núcleo ou mundo matricial - a que o pintor chama tela-mãe - e seus descendentes, mais pequenos e dele dependentes. A segunda imagem é de outra ordem. retirada, não do mundo familiar, mas do universo, aponta para um elo cósmico entre um planeta  principal  e  os  elementos  a  que  o artista chama satélites, obrigatoriamente em torno daquele - "no inevitável girar da roda" , como se lê no título de uma das obras expostas. Na gama cromática utilizada, na  economia de certos tons e na intensidade profunda de outros, sente-se o mesmo apelo primordial convocado pela disposição descrita.

 

Mais do que procurar imagens que clarifiquem a organização apresentada por Freitas Cruz - imagens da humilde esfera humana ou da esmagadora presença do universo - será importante determo-nos sobre a própria ideia de ordem, imperativo essencial.

 

Vejamos então como se nos revela a ordem inerente à produção de Freitas Cruz. Marcas de passos,  pegadas  expostas,  frisos  esquemáticos repetidos,  vestígios  de   mãos, rostos emergentes em contorno ténue: são estes os sinais do rasto a traçar, os momentos de um ritmo a respeitar, as etapas de um caminho a tentar. A organização destes sinais insinua um percurso recheado de valores rituais e musicais, como se de um tema e das suas variações se tratasse. No modo como se desenvolvem os indicadores descritos, de núcleo, passando do centro para a margem ou constituindo-se em linha, vamos entrevendo os ensaios de um trajecto a percorrer - "os apontamentos de uma deambulação", conforme sugere um outro título.  A função dos quadros que temos perante nós não parece ser outra senão a de reter e conservar os indícios de um trilho.   Neste particular, esta pintura cruza-se com uma das permissas mais fortes da arte contemporânea - a que valoriza o acto em curso, o projecto.  Mas aqui  o projecto aplica-se, tanto ao decurso da pintura, como ao decurso de uma marcha interior.

 

Uma das chaves desta pintura é precisamente a memória emotiva através da qual se lembram experiências anteriores para recuperá-las e actualizá-las, como no texto que o artista escolheu: (...) Se voltares a dar por ti nesse lugar, tenta recordar-te de como lá chegaste (...). Memória emotiva, íntima dos actores, habituados como estão às repetições que, noite após noite, põem em cena.  Na delicadeza e na simplicidade de motivos e na fluidez de certas manchas resgatam-se as dificuldades da memória.

 

Figuração do caminho, o trabalho de Freitas Cruz, não desvenda o ponto de chegada:    esse pertence ao mundo do silêncio, do que não pode ser dito, do que não se traduz em palavras. não se desatam, afinal, todos os nós da sua pintura.

 

Apesar da negação, subentende-se que o Oriente representa tudo o que um lugar de chegada pode ser. O exotismo é uma via fácil de aproximação ao oriente; o decorativismo é outra, igualmente acessível. O minimalismo é outra, de contágio com a filosofia, de compromisso com a religiosidade. E é nesta que se situa a obra presente.

 

Em notas escritas por Freitas Cruz, a que tivemos acesso, apercebemo-nos de que aquela memória emotiva de que falávamos, funciona como alavanca para a progressão da sua pintura, na reavaliação constante  de  obras  alheias  que  o  influenciam e de onde se transferem signos expressamente assumidos, na convicção de uma transfiguração pacífica e criadora.

 

Faremos do mesmo modo, socorrendo-nos das palavras de Filomena Molder num texto de 1984: "Se a pintura emudece perante o logos não é por vergonha ou indigência, os limites são antes de quem os interroga, da sua falta de lugar. A razão discursiva e a sua palavra são de uma ordem diferente daquela em que a pintura se produz. (...) Por isso podemos falar da pintura, mas a pintura não fala, não foi feita para falar".

 

Laura de Castro, Porto, 1998

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Circumambulatio

text by Portuguese art critic Laura de Castro

 

If  the  positioning  of  works in an exhibition  never is arbitrary, reflecting  links  and  ideas  the  artist or gallery director wished to   emphasize,   this  is   even  more  relevant   in  the present  show  in which  all   the   pieces  have  been  grouped  in rigorously  planned  nuclei.

 

The rules  that govern the plan suggest  two main images.  The first,  that  all  is  based  on  a  principle  of  affiliation between  a nucleus  or mother-realm –  which   the artist  refers  to  as  the hub  –  and its  descendants,   dependent  and  smaller  in scale - satellites.  The  second,  of  a different order  -  referring not to the familiar but to the universal -  points to a cosmic link between the central planet  and the satellites which gravitate around  it in   "the  inevitable  turn  of  the  wheel"    as  one of  the  titles suggests. One  can  sense  the  same primordial  appeal  in the  chromatic  range chosen, in the economy of certain shades and the intensity of others.

 

Rather than looking for images  that may shed light on the organization presented here - images recalled from the humble human realm or from the universe's overwhelming presence  - let us instead concentrate on the very idea of order Freitas Cruz puts forward.

 

What, then, characterizes the order in these paintings. A path laid out by foot-steps, exposed foot-prints, repetitive grids, traces of hands and emerging faces, finely drawn:  these are the signs of the trail to be traced, the timing of the rhythm to be respected, the stages of a path to be explored. The way in which the artist organizes his signs hints at a trail rich in ritualistic and musical values suggesting a theme and its variations.  By the manner in which these indicators are arranged, expanding from a nucleus out towards the fringes, or drawn in line, we are offered glimpses of trails that might be followed, as suggested by one of the titles  "notes from a short walk".  The function of the works at hand seems to serve no other purpose than to retain and preserve the signs of a trail. In so doing, [Freitas Cruz's work] is in tune with one of the strongest premises of contemporary art – that which values the act of painting in itself, the project. But in his case the project applies not only to the act of painting but also to the act of  progressing along  an  inner  trail.

 

One of the keys to these paintings lies in the emotional memory by means  of  which certain previous experiences are remembered so as to be  recuperated and acted upon as suggested in the text chosen by the  artist for  the present catalogue: (...) If  you  find yourself  in  this  place  again,  try to remember the steps that took you there (...). The intimate emotional memory of the actor, accustomed as he is to the scenes he rehearses night after night.

 

 

Figuration of a trail, Freitas  Cruz's  work  does  not disclose,  however, the  point of arrival:  such a point belongs to the world of  silence,  of  that  which  cannot  be  spoken and cannot be translated into words. After all, not all the knots in his paintings have been untied. In spite of this omission we can sense that the    point of arrival is to be found to the East.  A facile approach  to  the  Orient  would  have been through recourse to exoticism; a  decorative approach would have been another, equally  accessible,  means to  portray  it.  Minimalism is yet another course, one implying contagion with its philosophy and engagement in its religion. It is in the latter that the  present works should be included.

 

 

In texts written by the artist and which we were privy to we discover that the emotional memory we alluded to acts as a lever for the progression of his art through constant re-evaluation of works that influence him by other artists and from which he consciously transfers signs in his drive to perform a truly pacific and creative  transfiguration. We shall do accordingly calling on Filomena Molder's words from a text written in 1984: "If painting becomes mute when faced with Logos it is not out of shyness or lack of power, rather the limitation befalls whoever questions it and the purposelessness of such an endeavour.  Discursive reason and its words belong to a different order to that in which painting happens.  (...) Therefore we can speak of painting, but painting does not speak,  it was not meant to speak".