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India 

 

texto de David Mourão-Ferreira

 

Ao ver os óleos e as aguarelas de Freitas Cruz, de imediato me acudiram à memória estas palavras da grande escritora brasileira Clarice Lispector: "Tanto em pintura como em música e literatura, tantas vezes o que chamam de abstracto me parece apenas o figurativo de uma realidade mais delicada e mais difícil, menos visível a olho nu."

 

Eis precisamente o caso de Freitas Cruz: mesmo quando os seus quadros, a um primeiro relance, parecem partilhar de um tal ou qual pendor "abstracto", cedo compreendemos que de facto sempre eles "figuram", e sem o recurso a qualquer figurativa mimese, uma realidade tanto mais pessoal quanto mais se situa - ou flutua - na nublada fronteira de esotéricas tradições.

 

E quais são elas? Não, decerto, pelo menos de modo prevalecente, as da herança helénica ou as de matriz judaico-cristã. É mais longe no espaço, e porventura no tempo, que Freitas Cruz encontrou aquelas fontes de secreta sabedoria mais afins do seu próprio espírito. Por outras palavras: ao Oriente as foi buscar; "ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé", àquele Oriente excessivo que é "tudo o que nós não temos" e "tudo o que nós somos", como dizia Álvaro de Campos.

 

Simplesmente, e porque não deixou de in loco o ter conhecido, Freitas Cruz, com uma superior mestria e uma rara discrição, trata sobretudo de depurar, de sublimar, de captar a quintessência do próprio excesso desse mesmo Oriente. Mas o aparente "minimalismo" dos processos de tal captação do  essencial   (sobremodo  patente nas  suas aguarelas) constitui ainda um gesto de homenagem em relação a semelhante realidade: deixando por um lado entrever a estreita intimidade que com ela mantém, do mesmo passo nos convida a mais detidamente, ou com redobrada atenção, dela nos acercarmos. E tudo isto, quer nas aguarelas quer nos óleos, atinge, não raro, aquele mágico ponto de fusão entre o revelado e o aprendido que será sempre a grande pedra de toque do artista verdadeiro. Como é o caso de Freitas Cruz.

 

David Mourão-Ferreira, 1992

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Catalogue text for my solo exhibition India

by Portuguese poet David Mourão-Ferreira

 

Upon seeing the work of Freitas Cruz, the  words  of  the  great  Brazilian writer Clarice Lispector sprang to mind: «So often in painting, as in music and literature, that which is called abstract seems  to  me  to  be simply  the  figuration  of  a somewhat  more delicate and more difficult reality, less  visible  to  the  naked eye». 

 

Such is the case at hand: even when at first glance Freitas Cruz's  paintings  seem to reveal an inclination towards “abstraction” we soon realise that nevertheless they always figurate his own personal   reality, one which he has come to unravel within the nebulous frontiers of esoteric traditions.

 

And which might those be? They assuredly are not, at least not prevailingly, those of our western Hellenic and Judaeo-Christian heritage. It is further in space, perhaps even in time, that Freitas Cruz discovered those sources of secret knowledge more akin to his own spirit. He looked for them in the East; in that «Orient whence  everything  comes,  both day and faith», the «Excessive Orient» that is «all that we do not yet have» and «all that we already are» to borrow the words of the poet  Álvaro de Campos.

 

However, because he did not fail to experience it first-hand, Freitas Cruz, with superior mastery and rare discretion has managed to purify, sublimate and capture the quintessence of the very excess of the Orient. The apparent “minimalism” of the process by which he captures Essence (especially noticeable in his watercolours) further constitutes a tribute to such reality: allowing us on the one hand to perceive the intimacy he has upheld with it over the years, he invites us  at  the same time to approach it on our own terms and to look at it with renewed vision. Indeed, we find both in his watercolours and his works in oil, that he often attains that magical point where that which has been learnt and that which is revealed becomes fused into one as only a true artist is capable of achieving.