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Submersão e Voo

 

Primeira exposição individual

texto de Lima de Freitas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao longo do tempo foram já muitas as minhas incursões no domínio do que, com maior ou menor infelicidade, se designa por "ensino artístico"; na verdade, ninguém ensina ninguém, muito menos nos domínios tão complexos e sensíveis da arte, se entendermos por "ensinar" mais do que a simples transmissão de algumas técnicas, "modos  de  usar" e artifícios de oficina ou,  por outras palavras, não  apenas informar mas,  sobretudo, formar; só o aprendiz se ensina a si mesmo,  se puder e quiser - e o papel do mestre consiste, fundamentalmente, em catalisar, exemplificar, estimular. Para de facto "ensinar" terá de ser infatigável na comunicação de energia, na crítica útil e construtiva e, de modo mais subtil, nessa tarefa de libertar o eu profundo do discípulo das suas  hipnoses específicas, do peso,  por vezes esmagador, dos complexos, angústias, desânimos e obstáculos interiores que bloqueiam o dimanar das forças criadoras. Aí se situa a mais difícil missão do mestre, mas também o seu mais nobre título de glória, que nos melhores exemplos o equipara ao psicólogo (ou ao psiquiatra!), ao confessor, ao guia psicopompo.

 

 

Certos discípulos evidenciam, logo à partida, sinais de uma configuração interna bem definida, marcada por evidentes pendores: pendores e configurações que são logo uma vocação, no sentido fundo da palavra, denotando a presença de uma voz própria, a insistência de um chamamento. Tal o caso de Freitas Cruz: jovem em cuja imaginação fluem as linfas arquetípicas da Água e também do Ar, como se denuncia nos seus trabalhos espontâneos; e cujo discurso poético é tecido de confissões discretas, acenos e alusões, onde a melancolia, uma saudade indefinível e a contemplativa ponderação do mistério das coisas se dispersa em afogamentos,    em adeuses e lentas dissoluções ou parte deslizando à deriva nas correntes aéreas da atmosfera crepuscular.

 

 

Trata-se de um  universo  de  tranquila  tristeza,  por  vezes   com  assomos  extremo-orientais  (o voo de pássaros coloridos, a filigrana das arborescências), onde palpita a presença do que está ausente e a imaterialidade se faz visível. Submersão e voo: submersão nas inundações imóveis do mar, das lágrimas, do olvido, descida lenta,  como  a  do  afogado,  nas camadas azuis do  inconsciente  maternal;   e  voo como um anelo, subida  deslizante  de   cisnes   e   flamingos emblemáticos, de barcas sem barqueiro ligadas por um fio à  memória  de  rumos  astrais.

 

Freitas Cruz, com o enriquecimento da experiência e a depuração do íntimo imaginar, poderá ser uma voz autêntica, pessoal e digna de se escutar, olhando, em cuja arte os contrários da queda e da ascensão apelam um para o outro, criando a tensão de um drama estático em nenhum acto e uma só  (invisível)  presença.

 

 

Lima de Freitas - Lisboa 1985

 

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Submersion and Flight contemporary abstract painter

 

Catalogue text for first solo exhibition

by Portuguese painter Lima de Freitas

 

 

My forays into the realm of "artistic teaching" – an unfortunate description – have been many throughout the years; in truth no one teaches nobody, especially in the complex and sensitive realm of art, if by "teaching" we imply more than the mere transmission of techniques, applications, and workshop trickery - in other words, not simply to inform but rather, to form; the apprentice alone is capable of teaching himself, if he is skilful and if he so desires - and the role of the master is to act as  a catalyst, exemplifying  and spurring  him on. To really 'teach' he must be tireless in communicating energy, giving useful and constructive criticism, and engaging, ever so subtly, in freeing his disciple from his own specific hypnosis and the sometimes unbearable weight of complexes, anxieties, and inner obstacles that so often hinder the awakening of creative forces. Therein lies the master's greatest challenge, but also his greatest glory, one that elevates him in the best of cases to the rank of psychologist (or psychiatrist!), of a confessor or a psychopomp.

 

 

Certain disciples reveal from the outset signs of possessing a clearly defined inner configuration with distinct inclinations – inclinations and configuration that reveal an honest calling marked by the presence of unique expression and the insistence of true vocation. Such is the case of Freitas Cruz, a young artist in whose imagination the  archetypal life-fluid of the elements of water and air freely flows as   these   spontaneous   works   so  clearly  reveal; and whose poetic discourse is fashioned from discreet confessions, beckoning  and allusions, in which melancholy, an indefinable nostalgia and the contemplative pondering of life’s mysteries is dispersed in drownings, goodbyes, and leisurely dissolutions, or is carried away, adrift in the aerial currents of twilight’s atmosphere.

 

 

We stand before a universe of tranquil sadness laden here and there with hints of the Far East (the  flight  of colourful  birds,  the  filigree of branches), where the presence of what is absent pulsates and the immaterial unexpectedly becomes visible.  Submersion and Flight: submersion in the immovable flooding of the sea, tears and forgetfulness  -  a slow descent into the blue depths of the maternal unconscious; but also flight, similar to that of a flaming desire - the gliding ascent of flamingos or those flying boats left without helmsman,  linked  only  by  a  thread  to  the memory of astral  bearings.

 

Through the refinement of his innermost imagination and with the wealth of experience Freitas Cruz may well become an authentic voice, personal and dignified, worth listening to through one’s eyes – his is an art, in which the opposites of ascension and fall reach out to one another thereby creating the tension of a drama devoid of acts and one single (invisible) presence.